Trata-se de uma espécie de "Menu Cultural" do que o escritor vem produzindo no campo da poesia,conto, crônica,roteiro de cinema e TV,peça de teatro, e recentemente: novelas on-line. Além de compartilhamento de pensamentos e troca de experiências com todos aqueles que de alguma forma colaboram com a cultura sergipana.

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

ONDA PERFEITA - Por Anderson Teinassis

 



No lençol azul do mar de Atalaia,
o vento me conduz às tuas curvas —
ondulações improváveis
onde o destino brinca de me levar
exatamente até você:
Onda Perfeita.

É mais forte do que eu.
Sou surfista na alma e no instinto,
feito para seguir o chamado das águas.
E assim risco a pele líquida do teu oceano
como quem escreve o próprio nome
num verso secreto que ninguém lê,
mas que todo surfista
sente pulsar no peito.

És onda dourada, farta, profunda,
nascida em verde-escuro denso,
carregando mistérios antigos
como quem guarda
todos os segredos da terra.

Você me desafia — e eu avanço.
Avanço outra vez.
E nesse diálogo rasgado, tubular, aéreo,
eu sigo com força e delicadeza
até tocar o centro do teu movimento.

Sou surfista acostumado a horizontes,
às teimosias das marés,
às muralhas que o mar ergue
para testar o coração dos homens.
Mas é só você,
Onda Perfeita,
que me instiga de verdade
com tuas espumas em guerra
e teu silêncio em convite.

Firmo meu propósito:
surfar você inteira.
Com amor, empenho
e uma devoção que só
as ondas raras merecem.
Com minha prancha azul-clara —
vibrante, marcada de batalhas —
desenho cicatrizes leves
no dorso das pequenas ondas
e dos obstáculos que me conduzem até ti.

Caminho sem pressa
por trilhas de espuma branca
que sobem, dançam, explodem no ar,
até produzirem em você
o brilho orgástico da luz.

Algumas manobras me jogam para trás,
outras me lançam para o futuro —
mas todo gesto termina
no corte súbito:
o snap, o cutback,
essa poesia marítima
que só você entende
sem necessitar tradução.

E quando enfim te encontro,
você me abraça inteira —
grande, sonora, indomada.
E eu não recuo.
Entro como quem entra
num destino inevitável.
Equilibro-me entre o risco e o sagrado,
entre o caos molhado
e a liberdade absoluta
que o oceano oferece
apenas aos que ousam tocá-lo.

No fundo, no fundo,
teu horizonte reto e silencioso
me observa como juiz sereno.
Há quem veja duelo.
Você sabe a verdade:
sou apenas alguém
tentando fazer parte
da tua natureza infinita.

Há amores que nascem como maresia,
mas se movem como tempestades escondidas.
E o nosso — esse amor que espuma, recua e retorna —
é como a onda perfeita
que o surfista persegue por toda a vida:
rara, tubular, silenciosa,
quase sem vento, quase sagrada;
daquelas que não vêm sempre,
mas quando vêm,
cravam eternidade.

Você é a minha Onda Perfeita.
Quando encosto meu coração no teu,
você responde tímida:
não quebra, insinua;
não fala, mas sussurra na arrebentação
segredos de água,
frases salgadas
que só entende
quem conhece o desenho secreto
do fundo do teu mar.

Não se divida,
metade sizígia, metade culpa.
O oceano não precisa pedir perdão
por querer ser tocado.
Eu avanço, avanço, avanço…
Formo o tubo — você desfaz a parede.

Eu intensifico,
busco velocidade, o encaixe perfeito —
e você dramatiza,
ergue mais água do que é preciso,
grita medos em gotas,
desejos quebrando antes da hora.

Quando me calo,
quando deixo a prancha boiar
e teu mar respirar,
você retorna:
ressurge linda, redonda, quieta,
como se temesse
que eu enfim desistisse.

Mas você sabe.
Sempre soube:
fomos feitos um para o outro.
Sou surfista;
você é meu Halley —
onda rara, única,
vista e sentida
uma vez na vida
e por toda a eternidade.

Dizem que as ondas perfeitas
estão na Califórnia, Austrália, Haiti…
mas a minha Pipeline favorita
é sergipana, quente, próxima, viva.
E mora perto demais
para que eu a deixe passar.

E apesar dos desencontros,
dos tubos que não fecham,
dos mergulhos que arrancam o ar,
há uma certeza que nem o oceano apaga:

Eu sou Surfista.
E você é, para sempre,
a minha Onda Perfeita.

 Anderson Teinassis


domingo, 5 de outubro de 2025

AINDA SOMOS OS MOCINHOS?


 


Ainda somos os mocinhos,

ou já nos perdemos no labirinto das sombras,

estragados por visões que dividem,

corrompidos por profissões que endurecem,

ou, pior, insensíveis e indiferentes,

sob o peso das decepções,

das tensões, dos amores partidos,

das responsabilidades que esmagam o peito?

 

Será que trilhamos uma estrada sem volta?

Ou haverá sempre um dia

onde a aurora nos devolve a chance

de sermos amanhã, e no amanhã,

melhores do que fomos hoje?

 

Quem nos impede de semear esperança,

de ser farol em meio à noite,

referência de ternura,

modelo de um gesto simples,

gentil e humano?

 

E se a regra fosse a empatia,

se a lei maior fosse o abraço,

se a sensibilidade fosse a espada

e a coragem e o amor ao próximo, fossem o escudo?

 

Não nos deixemos perder

em cancelamentos digitais,

nem sermos reféns de fake news

que apagam a verdade

e semeiam feridas invisíveis

que fazem eco em bytes e terabytes.

 

Que o discurso seja de amor, não de ódio!

Que a palavra cure,

e não condene;

que a esperança resista

ao barulho das guerras

e ao silêncio das almas cansadas.

 

Pois, no fundo, no fundo...

todo herói é apenas alguém

que decidiu, num instante,

ser um Ser Humano simplesmente... Bom!

 

Autor: Anderson C.S. Teinassis ― 02/10/2025




segunda-feira, 16 de junho de 2025

NÃO PERCA TEMPO



Não percas tempo em queixa ou desatino,

A vida é chama viva, intensa e ardente.

Se estás aqui, respire sem temor,

Problemas são do tempo, do destino.

 

Viver não é fugir do próprio eu,

Viver não é se afundar nos gozos mais banais.

Viver não é sentir-se só num mundo global,

Ou crer em rosto falso, virtual.

 

Viver é mais que aplausos ou vaidade.

Viver é dar-se inteiro a quem o amor reclama.

Cuidar do corpo, espírito e verdade,

Com alma que se eleva e, resiliente, não descansa.

 

Viva! Só se vive uma vez — real contrato.

Viva! Que seja intenso, e não abstrato.

Viva! Viva com todo amor, com medo, raiva,

alegria, incertezas e prantos, mas viva.

 

Simplesmente Viva!


Por Anderson C. S. Teinassis
em 16 de junho de 2025.