No lençol
azul do mar de Atalaia,
o vento me conduz às tuas curvas —
ondulações improváveis
onde o destino brinca de me levar
exatamente até você:
Onda Perfeita.
É mais
forte do que eu.
Sou surfista na alma e no instinto,
feito para seguir o chamado das águas.
E assim risco a pele líquida do teu oceano
como quem escreve o próprio nome
num verso secreto que ninguém lê,
mas que todo surfista
sente pulsar no peito.
És onda
dourada, farta, profunda,
nascida em verde-escuro denso,
carregando mistérios antigos
como quem guarda
todos os segredos da terra.
Você me
desafia — e eu avanço.
Avanço outra vez.
E nesse diálogo rasgado, tubular, aéreo,
eu sigo com força e delicadeza
até tocar o centro do teu movimento.
Sou
surfista acostumado a horizontes,
às teimosias das marés,
às muralhas que o mar ergue
para testar o coração dos homens.
Mas é só você,
Onda Perfeita,
que me instiga de verdade
com tuas espumas em guerra
e teu silêncio em convite.
Firmo meu
propósito:
surfar você inteira.
Com amor, empenho
e uma devoção que só
as ondas raras merecem.
Com minha prancha azul-clara —
vibrante, marcada de batalhas —
desenho cicatrizes leves
no dorso das pequenas ondas
e dos obstáculos que me conduzem até ti.
Caminho
sem pressa
por trilhas de espuma branca
que sobem, dançam, explodem no ar,
até produzirem em você
o brilho orgástico da luz.
Algumas
manobras me jogam para trás,
outras me lançam para o futuro —
mas todo gesto termina
no corte súbito:
o snap, o cutback,
essa poesia marítima
que só você entende
sem necessitar tradução.
E quando
enfim te encontro,
você me abraça inteira —
grande, sonora, indomada.
E eu não recuo.
Entro como quem entra
num destino inevitável.
Equilibro-me entre o risco e o sagrado,
entre o caos molhado
e a liberdade absoluta
que o oceano oferece
apenas aos que ousam tocá-lo.
No fundo,
no fundo,
teu horizonte reto e silencioso
me observa como juiz sereno.
Há quem veja duelo.
Você sabe a verdade:
sou apenas alguém
tentando fazer parte
da tua natureza infinita.
Há amores
que nascem como maresia,
mas se movem como tempestades escondidas.
E o nosso — esse amor que espuma, recua e retorna —
é como a onda perfeita
que o surfista persegue por toda a vida:
rara, tubular, silenciosa,
quase sem vento, quase sagrada;
daquelas que não vêm sempre,
mas quando vêm,
cravam eternidade.
Você é a
minha Onda Perfeita.
Quando encosto meu coração no teu,
você responde tímida:
não quebra, insinua;
não fala, mas sussurra na arrebentação
segredos de água,
frases salgadas
que só entende
quem conhece o desenho secreto
do fundo do teu mar.
Não se
divida,
metade sizígia, metade culpa.
O oceano não precisa pedir perdão
por querer ser tocado.
Eu avanço, avanço, avanço…
Formo o tubo — você desfaz a parede.
Eu
intensifico,
busco velocidade, o encaixe perfeito —
e você dramatiza,
ergue mais água do que é preciso,
grita medos em gotas,
desejos quebrando antes da hora.
Quando me
calo,
quando deixo a prancha boiar
e teu mar respirar,
você retorna:
ressurge linda, redonda, quieta,
como se temesse
que eu enfim desistisse.
Mas você
sabe.
Sempre soube:
fomos feitos um para o outro.
Sou surfista;
você é meu Halley —
onda rara, única,
vista e sentida
uma vez na vida
e por toda a eternidade.
Dizem que
as ondas perfeitas
estão na Califórnia, Austrália, Haiti…
mas a minha Pipeline favorita
é sergipana, quente, próxima, viva.
E mora perto demais
para que eu a deixe passar.
E apesar
dos desencontros,
dos tubos que não fecham,
dos mergulhos que arrancam o ar,
há uma certeza que nem o oceano apaga:
Eu sou Surfista.
E você é, para sempre,
a minha Onda Perfeita.
Anderson Teinassis
